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Frei Betto: As múltiplas visões de um religioso fiel ao socialismo
Publicada em 28/08/2011 às 13h00m
Gilberto Scofield Jr. (gils@oglobo.com.br)SÃO PAULO - Só mineiros sabem./ E não dizem nem a si mesmos o/ irrevelável segredo/ chamado Minas". Nascido em Belo Horizonte há 67 anos, completados na terça-feira da semana passada, Carlos Alberto Libânio Christo - o Frei Betto - gosta de citar o poeta Carlos Drummond de Andrade, autor dos versos acima, para explicar a mineirice do sujeito que sai de Minas mas Minas não sai de dentro dele. Frei Betto saiu de Belo Horizonte em 1966, quando entrou para a Ordem Dominicana em São Paulo. Nesta segunda-feira, quando seu novo livro chegar às livrarias, mostrará que Minas, afinal, não estava tão longe assim.
O romance "Minas do Ouro", 54º livro do frade dominicano, jornalista e escritor, conta a saga de uma família, os Arienim, tendo como pano de fundo a História de Minas. Nas páginas do romance, fronteiras do real e da ficção se misturam em histórias como a do Arraial de Vila Rica (atual Ouro Preto), elevado à categoria de vila pelo governador português Antônio de Albuquerque, que a batizou de Vila Rica d'Albuquerque (uma verdade histórica). O protagonista Vitorino Arienim reclama à Corte do crime de lesa-majestade (ficção), o que faz o imperador D. João V mandar que Albuquerque devolva à cidade o nome original (verdade).
- Meu pai, Antônio Carlos, era jornalista, escritor e apaixonado por Minas. Da nossa biblioteca, li 120 livros sobre a história do estado e seus personagens, de Tiradentes a Aleijadinho - diz ele.
- Frei Betto é um historiador nato e o livro é muito bom. Tem estilo forte e vigoroso que encaixa bem com a História de Minas - diz a historiadora Neusa Fernandes, vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro, uma das poucas pessoas a quem Frei Betto consultou antes de publicar o romance.
A ideia do romance histórico sobre Minas nasceu nos anos 80. Em 1998, começou a escrever o livro, numa gestação de 13 anos interrompida aqui e ali por sua participação ainda ativa em movimentos sociais, pelas palestras regulares para empresas e organizações, pela urgência de escrever outros livros e por sua atuação política - em 2003 e 2004, Frei Betto trabalhou como assessor especial do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva coordenando a mobilização social do Programa Fome Zero (engolido pelo Programa Bolsa Família), em parceria com o presidente do Instituo Ehtos, Oded Grajew.
A experiência, para variar, terminou em livros: a coletânea de ensaios "A mosca azul", de 2006, com reflexões sobre o poder e a ética, e o best-seller "Calendário do Poder", lançado em 2007, em que descreve, como num diário, sua aventura no Planalto.
- O Betto não só é um pensador excepcional, como tem um senso prático capaz de transformar ideias em ação de forma efetiva - diz Grajew.
Mas Frei Betto, amigo de Lula - com quem ajudou a criar e organizar o movimento sindical, a CUT e o PT em São Paulo, a partir da década de 80 - garante que saiu do governo, em primeiro lugar, para escrever.
- Sou disciplinado e compulsivo em se tratando de livros. Com exceção do período em que participei do governo, dedico 120 dias do ano à literatura. Tenho minha agenda com livros preenchida até outubro de 2012. E, quando me proponho a isso, vou para um lugar isolado e só faço rezar e escrever - diz ele.
Sua paixão pelos livros pode ser conferida por quem visita o quarto de cinco metros quadrados que Frei Betto ocupa no Convento Santo Alberto Magno, em Perdizes, na Zona Oeste de São Paulo. Ali, onde acorda há anos entre 5h e 6h, mal se vislumbram a mesinha de trabalho, o armário e a cama. Pelas paredes, pelo chãos, pelos cantos, amontoam-se livros, papéis e escritos sobre suas áreas de estudo preferidas, de Antropologia a Filosofia, de Teologia a Jornalismo. E romances, claro. A rotina é simples quando ele não está viajando (coisa frequente): café da manhã, oração, escrever, almoço, escrever, oração, jantar, leitura, oração, cama.
- Admiro sua energia, integridade e a maneira como transita confortavelmente entre ficção e não ficção, livros para adultos e crianças, além de temas tão diferentes quanto religião, culinária ou música - diz Paulo Rocco, da Editora Rocco, que publicou oito livros do frade.
Os 53 livros escritos resultaram na venda de mais de três milhões de exemplares traduzidos para uma dúzia de línguas.
Não é sem razão que todas as suas experiências de vida e memórias estejam direta ou indiretamente publicadas em livros, incluindo reflexões religiosas progressistas que fariam corar conservadores como o papa Bento XVI. Afinal, Frei Betto é adepto da Teologia da Libertação, corrente desenvolvida na América Latina que defende o papel transformador da Igreja no combate à miséria através da conscientização política. No Brasil, durante a ditadura, o embrião desse pensamento surgiu em conventos e mosteiros católicos. Muitos frades e padres, como o próprio Frei Betto, ajudaram a esconder dissidentes ou mandá-los para o exílio, enquanto denunciavam abusos e torturas.
No Brasil pós-ditadura, a corrente ganhou uma ideologia de esquerda e um formato mais atuante nas comissões pastorais ligadas a áreas sensíveis, como direitos humanos, reforma agrária, política carcerária, direitos trabalhistas e educação popular. São parte dos movimentos sociais que o frade ajudou a criar.
- Frei Betto é um aliado querido na luta pelos direitos humanos desde que o Grupo Tortura Nunca Mais foi criado, há 26 anos - diz a psicóloga Cecília Coimbra, fundadora do grupo.
De 1969 a 1973, o governo militar prendeu Frei Betto e outros dominicanos no presídio Tiradentes, em São Paulo, pelo envolvimento com a Ação Libertadora Nacional, de Carlos Marighella. As cartas escritas naqueles anos resultaram no que se considera seu primeiro livro: "Cartas da Prisão". Desse período também resultou o livro "Batismo de Sangue", vencedor do Prêmio Jabuti como melhor livro de memórias em 1982 e transformado em filme de Helvécio Ratton em 2007. No complexo Tiradentes também ficou presa a presidente Dilma Rousseff.
- Éramos vizinhos na juventude em Belo Horizonte. Mais tarde, fomos novamente vizinhos no presídio Tiradentes. Em 2003, Dilma foi minha vizinha no Planalto, na época em que trabalhávamos com Lula - diz o frade, que defendeu Dilma nas eleições, quando adversários tentaram colar nela pechas de "abortista" e "ateia".
- Os comunistas não queriam que ele fosse frade e os frades não queriam que ele fosse comunista - conta o irmão caçula de Frei Betto, o psicólogo Leonardo Libânio.
Socialista num mundo onde os conceitos de direita e esquerda sequer existem mais, e religioso numa época de descrenças monumentais, Frei Betto possui fanáticos admiradores e ferozes inimigos. Entre fundamentalistas católicos, é considerado "herege" por sua defesa de pontos de vista progressistas como os casais homoafetivos.
Suas posições sobre o celibato são controversas. O frade, alvo da paixão de uma colega da USP aos 23 anos (namorou a colega e voltou para o convento), já admitiu que não sabe se não se apaixonará de novo. Gosta de lembrar que, no primeiro capítulo do Evangelho de Marcos, está que Jesus curou a sogra de Pedro. Ou seja, o filho de Deus escolheu Pedro, homem casado, como seu apóstolo e primeiro papa. Ainda que o celibato imponha abrir mão do desejo, ele não se diz um homem carente:
- Nunca fui punido pela Igreja e dois papas leram meus livros e gostaram. Paulo VI leu "Cartas da prisão". João Paulo II, "Fidel e a religião".
Por sua defesa de Cuba, já foi chamado de "defensor de ditaduras de esquerda".
- Nenhum país latino avançou tanto nos indicadores sociais, de Saúde e de Educação como Cuba - responde.
A quem acusa seu lado marqueteiro de ser maior que o filosófico, lembra que não dá entrevistas à TV e escolhe a dedo os veículos com que conversa.
Os 40 anos de militância nos movimentos sociais não o impedem de ver defeitos nos governos Lula e Dilma. Os avanços no combate à pobreza são comemorados, mas, para ele, insuficientes. Tem impaciência com a burocracia do governo, a complacência com a corrupção, a substituição de um programa emancipatório de redução da miséria (Fome Zero) por outro assistencialista (Bolsa Família). Por fim, a manutenção da política econômica é chamada de "selvagemente capitalista":
- Ninguém é contra o combate à inflação, que penaliza sobretudo os mais pobres, mas a redução da pobreza e dos desníveis sociais não acontece sem mexer na estrutura fundiária, na educação e na qualificação profissional, na expansão dos serviços de saúde, na inovação e na pesquisa. Não adianta. Sou um progressista - afirma.
Leia mais sobre esse assunto em http://oglobo.globo.com/pais/mat/2011/08/28/frei-betto-as-multiplas-visoes-de-um-religioso-fiel-ao-socialismo-925231611.asp#ixzz1WPxAkeJU
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